Bancos querem fatia maior do crédito agrícola
18 Jul 2016
Em um cenário de retração de diversos setores da economia brasileira, as instituições financeiras têm voltado cada vez mais suas atenções para o crédito agrícola, tradicionalmente dominado pelo Banco do Brasil. Entre as principais estratégias adotadas estão o aumento do volume de recursos do agronegócio em relação ao total da carteira; a especialização da equipes de atendimento, inclusive com a contratação de agrônomos; e a aproximação do relacionamento com cooperativas, empresas do setor e produtores.
Para a safra 2016/2017, todos os principais bancos privados do País incrementaram o volume de recursos disponível. Apenas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o Sicredi vai liberar R$ 6,1 bilhões, quase 8% mais do que no ciclo anterior. Em nível nacional, o Santander não revela os números, mas pretende incrementar em 20% a disponibilização de recursos livres e controlados. Da mesma maneira, o Bradesco, que aplicou R$ 21 bilhões, em 2015/2016, pretende aumentar o índice em 10%. O Banrisul, por sua vez, lançou, no fim do mês passado, uma carteira de R$ 2,1 bilhões para produtores gaúchos, alta de cerca de 10%.
Por outro lado, o volume maior de recursos voltado ao campo tem sido acompanhado por elevações nos juros nos últimos dois anos. No Plano Agrícola e Pecuário, lançado pelo governo federal em julho, as taxas variam de 9,5% a 12,75% ao ano, sendo de 8,5% para o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). De acordo com os bancos, a elevação das alíquotas não tem influenciado nas contratações, pois ocorreram paralelamente a alta da taxa Selic, hoje em 14,25%. No caso da agricultura familiar, que contará com R$ 30 bilhões, as taxas variam de 2,5% a 5,5%, apresentando queda para produtos agroecológicos e da cesta básica.
Mesmo com a maioria das alíquotas mais onerosas, o agronegócio segue com inadimplência baixa na comparação com outros setores. "É uma inadimplência muito aquém do mercado tradicional. É um setor que vem se beneficiando de safras cheias, preços bons nas commodities e, com isso, acaba tendo um cenário diferente em relação aos demais segmentos", explica o diretor executivo do Sicredi, Gerson Seefeld. No Banrisul e no Sicredi, por exemplo, as pendências dos agricultores giram, respectivamente, em torno de 3% e menos de 0,3% da carteira de crédito.
Enquanto o custeio e a comercialização da lavoura exigem crédito anual, a área de investimento é a que mais sentiu os efeitos da crise econômica, vide as bruscas quedas nas vendas de máquinas nos dois últimos anos. Segundo Seefeld, a busca por financiamento para compra de maquinário, armazenagem e construção, caiu nesse período. "Há cinco anos, houve investimento pesado na renovação do parque de máquinas. Depois, o produtor passou a fazer aplicações mais precisas. Acredito que, agora, está havendo uma readequação do mercado, com investimentos em equipamentos que gerem mais produtividade e menos perdas na colheita", explica.
Para o superintendente executivo de Agronegócios do Santander, Claudio Yutaka, principalmente na região Sul, há espaço para renovação do maquinário, o que tem impulsionado a procura por crédito de investimento. "Em geral, os produtores trocam 10% do parque de máquinas anualmente e há um desgaste natural pelo uso de colheitadeiras e tratores", analisa. Yutaka afirma ainda que o aumento do preço médio da terra tem obrigado o agricultor a investir em agricultura de precisão, irrigação e armazenagem para elevar a produtividade. Nesse cenário, entram as linhas de silos, construção civil e renovação tecnológica: outra oportunidade dos bancos para captar o setor que mais cresce na economia brasileira.
Para aumentar a participação do agronegócio na carteira de crédito, os bancos usam de diversas estratégias para oferecer serviços ao setor. Alguns deles, como o Bradesco e o Santander, têm apostado na especialização do atendimento. "Ampliamos e especializamos nossas equipes comerciais, focando o atendimento na cadeia produtiva dos nossos clientes", conta o superintendente do Bradesco, Rui Pereira Rosa. O segmento representa, atualmente, 10% dos ativos em moeda nacional da instituição financeira, que, recentemente, incorporou clientes do HSCB.
No mesmo sentido, o Santander coloca em prática, desde o ano passado, seu novo planejamento estratégico da área agrícola, colocando agrônomos para ajudar na tomada de decisão e na gestão da carteira, principalmente, de médios e grandes agricultores. "Com isso, vamos focar no bom produtor: aquele que tem ótima produtividade, plano de sucessão e disciplina financeira. Queremos dar a oportunidade para ele financiar tudo com o banco", destaca superintendente executivo de Agronegócios do Santander, Claudio Yutaka.
O Sicredi, por sua vez, tem na agricultura familiar cerca de 71% das suas operações e quase 40% dos recursos liberados. Do total da carteira de crédito, 40% é disponibilizado para o setor agrícola. "Outro ponto importante é que estamos fazendo trabalho forte de captação da caderneta de poupança, de onde vem 2/3 do nosso crédito rural hoje", afirma o diretor executivo do Sicredi, Gerson Seefeld. Conforme Seefeld, o crescimento no volume de recursos em cerca de 9% ao ano coincide com a elevação média do número de associados.
A participação em eventos do setor, como a Expointer, que início em agosto, em Esteio, é tida como essencial para se aproximar do produtor. O Banrisul tem marcado presença regularmente, inclusive, em feiras de terneiros. Cerca de 10% do montante de ativos do banco estadual está alocado no crédito rural. "Estamos lançando o plano safra em diversas regiões junto aos agricultores, gerencias regionais e sindicatos. A estratégia é de estreitamento do relacionamento com o setor", explica o diretor de crédito do Banrisul, Oberdan de Almeida.
Fonte: Jornal do Comércio