Andriolli Costa / Rural Centro

“Na minha época, quando se ia comprar carne não tinha muita opção. A gente só pedia por cortes para churrasco, cortes para a panela ou cortes para fritar”, relembra o médico veterinário Fábio Medeiros. No entanto, pouco mais de uma década depois o mercado mudou consideravelmente. Dotado de maior poder aquisitivo e informação, o consumidor se tornou mais exigente, elevando a demanda por um produto confiável e de procedência. E é da necessidade de atender a essas exigências, bem como de agregar valor à produção, que o mercado vê surgir um número cada vez maior de marcas ou selos de qualidade da carne que garantem maciez, sabor e suculência. Com toda uma nova gama de opções a sua frente, o comprador agora precisa escolher o produto ideal não apenas baseado no preparo escolhido, mas também entre raças, idades de abate, modos de produção e coberturas de gordura totalmente diferentes.

O próprio Medeiros é um dos que influenciaram nesta mudança. É ele o responsável pelo programa de carne certificada da Associação Brasileira de Angus (ABA). Criado em 2003, com chancela internacional da AUS Meat, mesmo sem ser o mais antigo o selo é um dos mais conhecidos do País e referência para as demais marcas e associações. Muito da fama da carne vem da força que a marca tem nos Estados Unidos, onde desde 1978 o programa Certified Angus Beef – o primeiro do gênero em todo o mundo – reforça que a qualidade da carne da raça é superior à do gado comum, e que vale a pena pagar mais por isso. No Brasil, a Associação também tomou diversas ações para popularizar a carne; e uma das mais efetivas foi a parceria com a rede de fast food McDonald’s, que já dura um ano e meio. “As pessoas podem não saber por que o hambúrguer de Angus é diferente, mas vão ter a curiosidade de saber por que é diferente”, relata ele. A parceria também oferece uma boa saída para os cortes dianteiros do animal.

O objetivo da Associação é fechar todos os elos da cadeia produtiva da carne. Desta forma, segundo Medeiros, além das tradicionais parcerias entre frigorífico, produtores – que recebem premiações pelos animais de qualidade - e o varejo para a disposição e resfriamento adequado das embalagens de carnes, a ABA também buscou estreitar os laços com o consumidor. Para tanto, desde o final de 2012, oito casas de carne do Paraná passaram a trabalhar exclusivamente com carne da raça. “Existem muitas pessoas que não gostam da carne embalada a vácuo. Preferem a carne fresca, cortada ao seu modo”, esclarece. Em maio, o restaurante Fazenda Barbanegra, de Porto Alegre/RS, adaptou seu cardápio para uma fidelização 100% Angus. “A primeira coisa que fizemos foi realizar um treinamento intensivo com todos do local, do garçom ao proprietário. As carnes nobres possuem cortes diferenciados e o consumidor é ávido por essa informação. Ele quer saber o que é um chorizo, o que ele tem de diferente”.

Mas a novidade mais recente da Associação foi o lançamento durante a Feicorte 2013, a Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne, da reserva especial Black Angus (foto em destaque). Em parceria com a VPJ Alimentos - com quem já trabalhavam na linha tradicional – a Associação fornece somente animais extremamente jovens. “São abatidas apenas fêmeas, pois são mais macias, com até 18 meses de idade e alto grau de marmorização - a gordura entremeada entre as fibras”, explica o veterinário. O conceito inovador se posiciona como um produto de elite dentro de um mercado de elite. A carne vem porcionada e congelada em uma caixa especial com o selo de certificação e embalada em papel manteiga. “É carne para dar de presente”, orgulha-se Medeiros. O preço médio será de R$ 110 o quilo.

Carne Angus

Outras experiências
Ainda que o Angus seja o mais conhecido, o projeto de certificação da carne mais antigo do Brasil é da Associação Brasileira de Hereford e Brafford. O superintendente do programa de certificação da ABHB, Alfredo Drissen, conta que as primeiras experiências nesse sentido ocorreram ainda em 1998, mas só em 2000 foi criado por fim o Selo de Qualidade Pampa – substituído esta semana pelo selo Carne Certificada Hereford, lançado também durante a Feicorte 2013. Enquanto o selo garante a procedência dos animais, padronização de carcaça e sanidade, a marca distribuidora é a Seara Hereford, que fornece o produto a 2 mil pontos de venda.

Drissen reconhece que a carne certificada é limitada a um nicho de mercado. “A carne commodity sempre vai existir, porque a demanda por proteína animal, especialmente bovina, é crescente e precisa ser atendida”, afirma. “No entanto, com o aumento do poder aquisitivo, ele busca novas experiências, busca diferenciar a o que come no fim de semana ao almoço do dia a dia, e é aí que entra a carne de qualidade”. Os números parecem acompanhar as previsões do superintendente. De acordo com dados divulgados pela Associação, foram 2 mil toneladas de carne certificada Hereford comercializadas em 2012, contra apenas 145 toneladas em 2011. Apenas no restaurante Vermelho Grill, na sede em Campo Grande e na filial de Porto Alegre, são servidas 50 toneladas por ano de carne da raça.

Com as margens de lucro cada vez mais enxutas para a pecuária, os produtos premium garantem maior rentabilidade para o produtor ao mesmo tempo em que dão garantias de padronização. Um dia a carne que se compra no açougue pode estar deliciosa, no outro pode estar dura, rançosa ou com excesso de nervos e gordura. Ao pagar um valor maior, o consumidor pode ter a certeza de encontrar cortes com igual distribuição de gordura, maciez, suculência e sabor.

Com a disseminação da proposta, a própria indústria passou lançar marcas próprias, e divulgar sua procedência. A JBS/Friboi, por exemplo, chegou a contratar o ator Tony Ramos para estrelar comerciais promovendo o slogan “qualidade tem nome”. A empresa possui as linhas Swift in Natura, Maturatta, Orgânico, Swift Black, entre outras. Mas se todos os produtos possuem características próximas, o consumidor não poderia ficar confuso em meio a tantos produtos? Como escolher a melhor opção?

Para o consultor de qualidade de carne Roberto Barcellos, diretor da Beef & Veal, é tudo uma questão de costume. “É a mesma coisa que aconteceu com o café, com o azeite, com o molho de tomate, com o café. Veja o tanto de marcas disponíveis no mercado. Isso está acontecendo com a carne agora, e é uma coisa boa. Traz opção para o consumidor”, afirma ele, que trabalhou até 2010 com a certificação Angus e hoje oferece consultoria para diversas marcas ou selos – entre eles o Bonsmara Beef e a Simental Jaguaretê. Detalhes como o perfil do consumidor a quem o produto se dirige e o posicionamento no mercado tornam-se decisivos na escolha da carne ideal. “A dona de casa, quando vai às compras, quer uma carne magra, limpa e barata. Já o homem, quando faz churrasco no fim de semana, busca uma carne mais gorda, saborosa e não se preocupa com o preço”, expõe. A carne com selo de qualidade Simental é um desses exemplos e vem apostando em uma fatia de mercado pra carnes magras com um bom toalete que retira todo o excesso da cobertura de gordura, chamando atenção como opção para o dia a dia.

Em uma experiência recente nos Estados Unidos, Barcellos percebeu que produtos que compartilhavam a mesma experiência e qualidade podiam apresentar uma diferença de até 400% no preço. O que muda é a quantidade de informação disponível, isto é, se a carne não tem hormônios, se não foram aplicados antibióticos no animal, se a sua produção é sustentável. No entanto, não são todos os consumidores que se preocupam com estas informações. “Se você colocar um caminhão com carne barata em frente a uma favela, com uma faixa bem grande avisando que ela foi produzida com a destruição de florestas ou com maus tratos aos animais, ainda assim vai vender”, especula. “Quem tem fome não vai se importar com essas coisas. É por isso que a carne commodity precisa continuar, com a carne de qualidade sendo uma alternativa”.

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